À noite no inverno de 1978, gritos de “Allāhu akbar” ecoavam dos telhados por toda Teerã. Os trabalhadores do petróleo estavam em greve. As lojas estavam fechadas. Soldados estavam posicionados nas principais interseções enquanto cortejos fúnebres percorriam cidades como Qom e Tabriz. Dentro de alguns meses, um dos monarquias mais bem armadas do Oriente Médio entraria em colapso.
A Revolução Iraniana não foi desencadeada por um único estopim. Ela surgiu de anos de repressão política, modernização rápida — e muitas vezes chocante —, tensão econômica e profunda ressentimento em relação à influência estrangeira.
De acordo com oEnciclopédia Britânica, a revolta de 1978-79 reuniu uma coalizão surpreendentemente ampla: socialistas laicos, conservadores religiosos, estudantes, comerciantes e intelectuais. O movimento foi descrito como ultrapassando as linhas de classe, refletindo como diversas queixas se uniram em uma única revolta nacional.
Um Sistema Político sob Pressão
Na década de 1970, o xá Mohammad Reza Pahlavi governava através de um sistema político bem controlado. Partidos de oposição eram marginalizados ou proibidos diretamente. Críticos corriam o risco de censura, detenção e vigilância pelo SAVAK, o serviço de segurança do regime.
A vulnerabilidade da monarquia, no entanto, remetia a um período mais longo. Em 1953, os Estados Unidos e a Grã-Bretanha apoiaram um golpe que restabeleceu o xá ao poder após o primeiro-ministro nacionalista Mohammad Mosaddegh nacionalizar a indústria petrolífera do Irã.
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Esse episódio deixou uma marca profunda na memória política do Irã. Para muitos iranianos, reforçou a ideia de que a sobrevivência da monarquia dependia do apoio ocidental.
Essa percepção permaneceu por décadas. A estreita relação do xá com Washington e os laços com Israel eram apresentados pelos opositores como evidência de influência estrangeira sobre os assuntos iranianos. Para o final da década de 1970, a frustração com a repressão interna havia se misturado à desconfiança antiga em relação à interferência externa.
Crescimento, Riqueza do Petróleo — e Ganhos Desiguais
A Revolução Branca do xá, lançada na década de 1960, visava modernizar o Irã em alta velocidade. A reforma agrária enfraqueceu os proprietários de terra tradicionais. A infraestrutura foi expandida. Campanhas de alfabetização e saúde pública atingiram áreas rurais. O desenvolvimento industrial acelerou-se, especialmente após o aumento dos preços do petróleo em 1973.
Os rendimentos com petróleo multiplicaram-se várias vezes durante a década. No entanto, a inflação também subiu fortemente. A rápida migração do campo para as cidades pressionou os mercados de habitação e emprego. Muitas famílias da classe trabalhadora que haviam deixado as aldeias para as cidades descobriram-se economicamente inseguras e socialmente deslocadas.
Britânicaobserva que a velocidade das mudanças perturbou as instituições estabelecidas. O Estado tornou-se mais rico e centralizado, mas a participação política não se expandiu de forma proporcional à transformação econômica. O desequilíbrio alimentou ressentimentos — especialmente entre os mercadores da feira, segmentos do clero e estudantes.
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Em seguida, no início de 1978, o descontentamento começou a ganhar força.
Ritual, Protesto e Escalada
Manifestações surgiram em janeiro de 1978 após um jornal publicar comentários considerados ofensivos ao Ayatollah Ruhollah Khomeini, o clérigo exilado desde 1964 por se opor às reformas do xá. As forças de segurança abriram fogo. Manifestantes foram mortos.
Nos centros urbanos, os cerimônias de luto transformaram-se em manifestações de massa. Na religião islâmica xiita, reuniões são tradicionalmente realizadas 40 dias após uma morte. Cada comemoração tornou-se uma oportunidade para novas protestos. Esses protestos, por vezes, geraram mais vítimas — e mais memorializações. O ritual religioso, na verdade, substituiu a organização política proibida. O próprio calendário sustentou o movimento.
Instituto dos Estados Unidos para a Pazdescreve este padrão como um ciclo contínuo de instabilidade. No final do verão, as manifestações estavam atraindo dezenas de milhares de pessoas. Em 8 de setembro de 1978 — um dia lembrado como “Sexta-feira Negra” — tropas atiraram contra manifestantes na Praça Jaleh em Teerã. O número exato de mortos permanece em disputa, mas o evento marcou uma ruptura decisiva. As perspectivas de compromisso desapareceram.
Greves se espalharam por setores-chave. Em outubro, trabalhadores do petróleo deixaram o trabalho, reduzindo significativamente a produção e cortando a principal fonte de receita do estado. Para dezembro, multidões enormes preenchiam as ruas de Teerã. Agências de notícias da época relataram comparecimento de centenas de milhares apenas na capital.
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Essa revolução diferiu em importantes aspectos das muitas revoluções do século XX. Ela não foi liderada por uma facção militar ou por um partido nacionalista secular que buscasse tomar o Estado. Khomeini desenvolveu uma teoria de governança —velayat-e faqihou governo por um jurista islâmico — que propunha colocar a autoridade final nas mãos de um líder religioso sênior.
O conceito saiu tanto da monarquia hereditária quanto do republicanismo de estilo ocidental, fundamentando a soberania política na supervisão clerical. Ao contrário das revoluções inspiradas no marxismo na Cuba ou no Vietnã, que enquadram seus conflitos principalmente em termos de classe, o movimento iraniano fundiu a autoridade religiosa com a política populista, dando à fé um papel constitucional central, em vez de simbólico.
Da Monarquia para a República Islâmica
O xá alternava entre concessões limitadas e repressões mais duras. Nenhuma delas estabilizou o país. Em janeiro de 1979, ele deixou o Irã, oficialmente em férias. Ele não retornaria.
Khomeini voltou em 1º de fevereiro para uma recepção triunfal por grandes multidões em Teerã. Em 11 de fevereiro, as forças armadas declararam neutralidade. A monarquia caiu.
Em 1º de abril de 1979, um referendo nacional aprovou por larga maioria a criação da República Islâmica do Irã.
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Nos meses que se seguiram, os líderes clérigos consolidaram o poder. Comitês revolucionários e o recém-formado Corpo de Guardas Revolucionários Islâmicos reestruturaram a estrutura de segurança. Uma nova constituição formalizou a autoridade de um líder religioso supremo, incorporando a supervisão dos clérigos no cerne do Estado.
Fontes:Enciclopédia Britânica; Instituto dos Estados Unidos para a Paz